Na estrada

Uma das poucas vantagens de sermos metade do Porto e metade de Florença, é a necessidade de viajarmos entre as duas cidades regularmente. Não tão regularmente fazemos essa viagem de carro e, com tempo, paramos pelo caminho para explorar os sabores, cheiros, modos de fazer e para conhecer outras pessoas que cultivam ingredientes e fazem comida como nós gostamos. Foi o que fizemos neste inverno. Desta ponta da península até à toscana, regressamos ao país basco e aos sabores do cantábrico, parámos na Provença francesa para comer e beber temperados pelo mistral da época e, antes de chegar ao destino, ainda passámos no Piemonte onde as trufas ainda estão na época alta e aprendemos mais sobre massas frescas e vinhos naturais.

Cozinhar aqui ou noutro qualquer lugar não é diferente e se há desafio que nos agrada é chegar a um lugar novo, visitar os mercados, ver os ingredientes frescos, cheirar, provar aqui e ali, fazer perguntas, receber respostas, perceber as diferenças e semelhanças com os nossos sabores e cozinhar com o que temos à mão.

Reunimos a família toscana à mesa para um repasto contaminado entre cá e lá, entre o que sabemos fazer e gostamos de comer com os ingredientes mais simples que pudemos encontrar.

No mercado havia cavalas, sgombro em italiano. Gordas mas de sabor mais suave do que as atlânticas. E também coelhos, bonitos e com boa alimentação, garantiu o vendedor e nós confiámos.

Juntamos a isto umas cebolas, um aipo e pouco mais. No jardim encontramos umas ervas, um limoeiro e um arbusto denso de louro. E depois o azeite, daquelas oliveiras centenárias da parte de baixo do jardim. Com pão, já não seria preciso mais nada.

A cavala foi marinada com sal, azeite, limão e ervas e servida num crostino. Do coelho fizemos uma canja, com os fígados um patê - aqui conhecido como fegatinni - e um escabeche ligeiramente avinagrado. 

A sobremesa foi um queijo da serra que nos acompanhou durante toda a viagem, com compota da abóbora que decorava a sala desde Novembro. E um bolo de pêra e chocolate, porque era dia de festa e de reunir a família.